04:23
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“... o sol se
punha cedo naquela tarde. A areia brilhava escaldante mesmo àquela hora do
entardecer.
Nossos corpos
faziam ondas, tal qual a fúria do mar, salgado como ele, veloz como sua subida
e seu desmanche em marolas inofensivas.
Você era pra
mim raso e eu profundo oceano mar adentro.
Era mais
forte... Incontrolável.
A brisa da
cabana a frente convidava-nos para deleites inexplicáveis...
Contudo só se
ouviam o estrondo dos trovões... Era a chuva anunciando caminho naquele céu
cinza.
Mas eu só
ouvia o silencio...
O barulho eram
nossos corpos em fogo, sal e sentido. Porque estávamos juntos e a natureza
parecia celebrar.
Hoje só escuto
o silêncio La fora vindo do vazio aqui dentro..
Porque me
lembro como se fosse primavera aquilo que a cada ano eu dou a vida para tentar
esquecer...
Amém
Pergunto: por
que o coração foi feito de músculos e veias?
Nunca entendi.
Somos
impelidos a amaciá-lo com cada batida incessante e umidece-lo para que não
seque. Mas pra que? Se ele sempre continua rígido, duro e morno. Seco no que
faz mesmo que não seja no que é.
Quando a noite
chegou à praia de Copacabana, na calçada preta e branca meus anseios estavam
estampados.
Flashes: você
na cama, você sorrindo, eu fumando e ela na encosta de seus ombros.
Tentava me
lembrar a cada passo que dava em direção ao mar que era apenas mais uma
historia, uma pagina a se virar, uma desilusão ou ilusão muito bem feita, projetada
apenas para me dar prazer, e dor; sinônimos se formos partir do preceito de que
amor e paixão andam juntos e ao menos um dos dois significa ferida e não
cicatriz.
As ondas do
mar sempre me remeteram a nostalgia, saudades de tudo aquilo que deixei perdido
lá atrás, num passado que insiste em se mostrar zumbi “carnificinico” em mim.
Ele fede e me mostra em decomposições de imagens, sons e cheiros e ate mesmo
gostos tudo aquilo que marcou, marca e me transforma a cada dia mais num pirata
no amor e no sexo. Sempre roubando, sempre saqueando, embevecido pelo rum que é
o ante gozo por entre pernas de machos e putas fedidas de qualquer centro
barato.
As ondas
batiam no cais àquela hora da noite e eu as escutava nascer com estrondo e
morrer silenciosas na paisagem aberta do Rio de Janeiro.
Saudades de
Sampa, mas saudades era algo que deixara para trás assim como as lembranças que
aquele mar me trazia.
Eu fora e era
feliz. Mas nunca consegui ser alegre o tempo inteiro.
Simplesmente
acreditava na máxima de que a mentira era um prato fundo, extenso e saboroso
para aqueles que possuíam o fogo necessário para mante-lo quente e sempre no
ponto.
Nem que a
mentira fosse mentir pra mim mesmo.
Drama Queen ou
drama folk que seja.
Cansado de me
esbarrar por tantas bocas e nunca achar aquela que me dá de comer ao invés
daquelas que me comem e sugam feito parasitas dementadores sugando energia
vontade e esperança.
Amor existe,
não em Sampa ou no Rio... E nem em nenhum outro lugar do Brasil.
Só o vi
coexistir comigo uma vez, num quarto, numa cabana de praia... Não como
aquela...
Que seja...
Afinal de que adianta aquelas lagrimas frias em meu rosto? De que adiantava
aquele lamento em forma de letras?
Mamãe sempre
me ensinou: “Once in Hell, Embrace The Devil”... E eu era um urso... Pronto a
agarrar e não soltar mais.
(...)
Tenho tesouras
nas mãos e não posso tocá-lo. Tenho medo do escuro e não posso enxergá-lo,
tenho receio do além e por isso não posso amá-lo.
Frases
dispersas de alguém que já não possuo. Se é que um dia possui.
5;38hrs. Café,
e balas de hortelã.
Escrivaninha
atolado de trabalhos de faculdade e nenhuma vontade de ser pra si mesmo e nem pra
um Outro.
Jazia ali
feito boneco de palha, feito boneco de pano os presentes de um aniversario
esquecido.
Preciso de
tudo um pouco para me fazer ir além do que a minha própria capacidade julga
necessário ou cabível. Só que às vezes ao contrario.
Uma facção de
desejos e reencontros de perdas e desencontros, de esquecimentos sem conseguir
esquecer.
Falo da minha
primeira vez real naquela cama branca cheia de instrumentos musicais
desafinados.
Ela e eu. Eu e
alguém que eu nunca havia visto na vida, mas achava que conhecia e entendia.
As discussões
eram sempre as mesmas:
“não há
culpados apenas você que mudou...
Mentira! Você
nunca tentou me entender, você nunca tentou me enxergar, você sempre julgou ser
difícil...
Eu? Você acha
que eu queria isso? Estávamos felizes ate olharmos no espelho e nos vermos
refletidos um no outro...”
Vá embora!”
Brigávamos todas
as semanas, todo mês reinava um dia de paz, para outros 29 de caos.
A merda das
relações humanas com humanos é que sempre o que há é o “você”, o “ele”, o “ela”
o “eles”, e jamais o “eu”.
Nada de
moralismo escroto não, simplesmente há aqueles que não pertencem aqui.
Há aqueles que
nasceram para entender, mas jamais possuir, encontrar. Talvez uma vez ou outra
(esperança sempre há e é a ultima mortal a morrer não é?), mas é difícil.
Não é simples,
não é fácil.
20 passos ate
o corredor e a janela trancada daquele apartamento frio.
Tudo esta de
cabeça para baixo ou será que a vida esta entrando nos eixos e eu não estou
acostumado com essa transição de paz?
E entre o mar
de Copacabana e suas mãos de tesouras já se passaram um ano...
(...)
Doente.
Esse é meu
estado, essa é minha condição.
Por mais que
seja de espírito, dessa vez é física também.
Dores pelo
corpo e o suor me fazendo companhia.
Alucinações
sonoras a acompanhar.
Ali está. Seus
olhos no teto da sala...
“te amo”! Um
grito enraivecido...
“te odeio! Não
te amo mais!” um brado sem emoção... Baixo sem entonação...
Então porque
ensurdecia tanto e me fazia fechar os olhos?
Cogumelos
vindo me encontrar à hora do chá das três.
Suor...
“... podemos tentar...
se você quiser...?”
“Sim... Mas...”
“Qual seu
medo?”
“Não é medo é
receio de ir além..”
“Alem? Você
quer dizer...?”
“Sim...”
“Não vou
mentir... Eu já fui... E quero ir mais alem...”
“Mas...”
“Cale-se e me
beije!”
“Mas...”
“... Me
beije...”
Grito! A luz
continua acessa... Nem sinal de maresia ou cabana de madeira. Só minha cama
encharcada, o termômetro digital apitando em 39°C e subindo e eu afoito e
tremendo acordando de uma ilusão de um passado real que já deveria ter
enterrado, esquecido.
Nada de areia,
nada de brisa leve, nada de olhos castanhos e boca vermelha...
(...)
Talvez não
seja mais a sua falta que me doa, talvez seja justamente a falta de senti-la.
Quem dera...
Em flashes
descompassados tudo retornou: a escada, a parede fria e áspera, a almofada suja
e fofa, a cadeira... A madrugada fria, a reza baixa, a corrida rumo ao
parque... À volta pelo mesmo caminho, a subida... À noite não dormida, a fuga
pela rua contraria, a carta queimada prestes a ser entregue, o quarto, o som, o
entendimento, a tentativa, a falha...
A ida, o tapa,
a promessa não cumprida, o desejo, a desistência, o não querer querendo, o
ódio... A palavra dita...
Tudo em
turbilhões de imagens... E eu já não alucinava mais... Ou sim?
(...)
Dizem que o
amor é potente. Tanto pro bem quanto pro mal. Nunca acreditei na parte “pro
mal”, mas tenho fé de que é verdade...
Sem fome, sem
sono, sem vontade. Me vi cascateando pelas ruas na madrugada, na chuva, no sol
escaldante a procura de sei lá o que. Tentando me livrar do que pesava. Algo
queria sair do peito. Com urgência, com força e vigor. Algo que chegava a doer,
doer física não só interna, como se houvesse um roxo no peito, no estômago um vazio...
Sensação de náusea.
A garganta
seca e os olhos queimam, pesa e dão dor de cabeça.
Incham à
medida que a água contida neles quer sair.
O vomito é
quase uma constante. As lembranças, flashes do que passou latejam cada vez mais
nítidos ou disformes em sucessões de imagens rápidas como slides de Power
point. Os sons e gostos, sensações se misturam e formam algo quase palpável,
denso que nos deixam tontos, vontade apenas de se largar num canto. No chão ou
no meio da avenida, abraçar-se e por uma única vez sentir o poder e a
existência de deus, anjos ou mesmo demônios em ti. Ao seu lado, a sua frente,
mas sentir algo alem daquilo que lhe consome a vida pouco a pouco. Parasita...
Suga o
sentimento, alimenta-se de risos e gozo, de sonhos e fantasias, de pequenos
pecados e puras santidades, de segredos não revelados e depois cospe acido,
cospem dor, cospe confusão, cospe doença, cospe imunidade nula, cospe lágrima,
tristeza, pesar, confusão e...
Sente então
que faz parte de um enredo masoquista e sádico de uma novela mexicana muito bem
elaborada. E se contenta dizendo: jaja passa, e jaja minha vingança chegara.
Mas não passa,
não chega, não ocorre, não é novela.
O que resta é
lembrar contra a vontade em cada musica, em cada momento que a vida insiste em
colocar no caminho amaldiçoar o maldito.
Por aquela
onda que não o afogou, pela fatídica hora que resolvi ir lhe salvar e aquela
garrafa esquecida e achada por nós... Malditos, malditos...
(...)
As pegadas
seguiam a direção do calçadão. Mas paravam antes de chegar ali de fato.
Parecia que
aqueles pés 42 sumiam de repente.
Anoitecia e eu
continuava a não saber o porquê estava ali, seguindo pegadas na areia.
Só entendia
que precisava seguir algo, resolver algo.
Sentei no
momento em que avistei uma garrafa azul não muito longe de onde eu estava.
Me aproximei.
A garrafa era transparente, o liquido em seu interior que era azul claro.
Mas alguém se
aproximava também da garrafa e fatidicamente de mim também.
Ele tinha
olhos castanhos.
Por algum
motivo só isso que retenho..ele tinha olhos castanhos...
Sorri, ele se
mostrou serio. Olhei suas pegadas e notei o 42 impregnado ali que procurara
exaustivamente por pura curiosidade.
Queria
perguntar seu nome. Queria perguntar como conseguira apagar suas pegadas antes
de chegar ao calçadão. Mas nada importava. Minha mente só conseguia visualizar,
pensar e dizer: olhos castanhos...
Um trovão, e a
chuva anunciou sua chegada.
Não daria
tempo de chegar em casa, olhei em volta avistei uma cabana aparentemente
abandonada ali perto.
Olhei para
ele, mas ele já ia embora em direção ao mar com a garrafa de liquido azul nas
mãos.
Me indignei. A
garrafa era tão minha quanto dele. E eu estava a fim de tomar aquele porre.
Segui-o e
notei que ele estava com uma expressão transtornada no rosto. Os demônios o
possuíam assim como a mim. Havia feridas e sangue naqueles olhos castanhos, tal
qual havia nos meus olhos negros...
De um gole só
ele esvaziou metade da garrafa. A largou na areia onde eu a apanhei antes que
derramasse o liquido.
Ele cambaleou
e correu meio a esmo para o mar.
Por algum
motivo a cena era trágica e alarmante. A chuva apertara, virava um temporal e o
mar estava arredio. As ondas violentas. Senti num espasmo o que viria a seguir
e corri.
Corri pro mar.
Corri como se minha vida dependesse disso... E nunca estive tão certo...
(...)
Loucura...
Exatidão... Cores difusas... Estava dentro da cabana... Que cabana?
Da praia não?
Não... Sim?...Completamente zonzo..., nu, excitado, corpo com corpo... Não era
assim que me lembrava os salvamentos em filmes e livros...
A chuva
açoitava, as ancas e os membros dedilhavam notas... Boca, pernas, mãos e sexo,
língua e saliva...
Dormi...
(...)
Nada
aconteceu... Era o que queria acreditar. Nada aconteceu era o que eu tinha
certeza que não poderia acreditar; pois acontecera.
Sem nome, sem
nada. Salvara sua vida e...
Apenas um par
de olhos castanhos...
Salvara sua
vida... Salvara?
Nem todos os
que estão em perigo querem ser salvos... Aprendera ao longo da vida ao longo
das pegadas.
1,2 anos à
frente e ali, tentando dar certo, olhos castanhos... Com nome, com face, com
corpo, com voz, com “obrigado” e sem garrafas sempre. E depois o quarto, a
mulher nua na cama, a duvida, os dilemas, o caminhar pelo calçadão... E mais
uma vez:
“por que o
coração foi feito de músculos e veias?”
Nunca entendi...
(...)
Anoitecia, e
as lagrimas já não podiam lavar nada além dos olhos e a dor de cabeça pós
ressaca no dia seguinte. Uma nuvem no céu com formato estranho e pecador,
brinda a noite com mais um filho não pregado depois de anos tentando rezar.
Era eu,
ajoelhado na calçada, com olhos lançados a me encarar e julgar, estranhar e
enlouquecer, tentando relembrar como se pedia misericórdia...
Pedindo ao
pai, ao filho e ao espírito santo, e a qualquer outro nome sem rosto na vida
para me fazer sossegar, esquecer e ter paz, ou conhecer o que é essa que só
parece ser uma palavra de três letras...
Só queria um amém...
Um amém para uma meia vida... Um amém, para um fim de vida, um amém para...
Então me
lembro que tudo não passa de um vazio... Apenas um vazio...
...Amém.
Willian Augusto


