08:12
Nunca Mais
/
0 Comments
'Que essa palavra nos aparte, ave ou inimiga!" eu gritei, levantando - "Volta para a tua tempestade e para a orla das trevas infernais! Não deixa pena alguma como lembrança dessa mentira que tua alma aqui falou! Deixa minha solidão inteira! - sai já desse busto sobre minha porta! Tira teu bico do meu coração, e tira tua sombra da minha porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."' *
As dores de cabeça eram constantes. Sempre do lado esquerdo.
Em sua cama ele tiquetaqueava suas dores como seu ultimo escárnio
são.
Em seu ultimo suspiro, o gozo de um escritor morto pela sua
cria.
E era de manhã e não a noite que os tormentos de uma alma
cansada e relutante começavam a despertar sobre as sombras de um Corvo faminto,
como se este, estivesse à espreita de seu próximo grito.
Seu quarto mobiliado de madeiras baratas, adquirida pela ida
suspeita de cada parente antes dele, prostravam-se em cada canto escuro, sem
nenhum limite de coesão.
As roupas lavadas a custo por ele mesmo se apresentavam
dispostas em camadas de cinza, branco e azul, dobradas por sobre uma maciça
torre de livros relidos exaustivamente por todos aqueles anos de solidão.
Ele sabia que estava doente. Que a morte lhe visitaria e ele
como bom anfitrião que sempre fora a receberia de bom grado, talvez com uma ou
duas lágrimas apenas para não se perder e desonrar seu teatro particular.
Não havia medo em sua face e em seus pensamentos, nem de se
perder ou ser perda.
Da janela mais alta, ele escutava como se fosse sussurros de
Mozart os gemidos da cadela de rua que sucumbia a dor da pré-morte assim como
ele. Frio e uma queda inesperada do parapeito da janela do 6° andar da casa
abandonada ao lado esquerdo de sua casa eram o resultado dessa fatalidade canina.
Nele, nem fome ou sede lhe apeteciam a essa altura, ao
contrario do estranho interesse por comprimidos escuros ingeridos a esmo e
regularmente a cada minuto. Lhe davam sensação de paz.
Não que houvesse algo a comer naquela casa semivazia; mesmo
que tais necessidades mundanas o consolassem. Naquela casa, Tudo reluzia da
cozinha a antessala, ate a escada de madeira maciça e encerada que levava ao seu
quarto.
Mas toda fruta, verdura e legume que aparentasse beleza e brilho,
em cores saudáveis, na verdade escondiam o mofo por debaixo de suas camadas de
apaziguamento e amargura.
Extensão dele, seu corpo seu lar, seu lar o seu corpo. Por
fora uma paz reinante onde tudo estava bem, e por dentro tudo podre. Talvez sua
última piada negra para o mundo subterrâneo. Ele fora consumido pela podridão,
e na morte as larvas não poderiam fazer dele seus banquetes de ação de graças.
Graça, de mãos aos céus era o que ele não pretendia ate o
derradeiro momento.
Ida de cruz, luz rarefeita e mascaras de orixás nunca lhe
vieram de antemão. Nem mesmo rapazote. Nem mesmo 'juventão'.
Igreja e templo só lhe conheceram no nascimento e no
casamento. Casamento aquele interrompido, pela amada deusa, maldita que lhe
fazia sucumbir do peito ao umbigo por não te-la.
Seu nome nunca mais dito ou proferido pelo vento ou sua
garganta já sem voz, era esquecido, e ao mesmo tempo resguardado em cada tijolo
exposto daquele quarto enegrecido.
Seus pesares, contudo não era de maldizer amores de carne e volúpia.
Não, não eram mais.
Se haviam pesares, eram de tormentos indescritíveis para a
razão conhecer. E nisso, seu abrigo ínfimo que era seus dedos e seu cérebro trairá
de injúrias vãs, sabiam bem. Só eles.
Deixara um ultimo escrito sob a cômoda direita de sua cama
impecavelmente arrumada mais cedo por um de seus filhos, inimigos. Uma carta.
era uma carta. Mas não de despedida ou de redenção.
E sim, uma carta totalmente avessa as normalidades de uma
vida anormal, como a dele.
Era uma carta de descrição. Uma carta que possua apenas duas
palavras, presididas por uma única frase. Duas palavras repetidas conforme suas
batidas – de seu coração – iam diminuindo e silenciando.
No dia em que percebera que seus personagens saiam de suas
folhas escritas e manchadas de tinta para lhe acusar e perguntar sobre os mistérios
de suas vidas, ele decidira que já era hora de se deixar ir para o mundo onde ele
fosse o personagem e não mais o autor. A loucura o sucumbia, se alimentava a
fortes garfadas e ele a saciava cada dia mais com angustias e amores superficiais
acompanhados de um copo de bebida – seu amado café, amargo escuro, de tinta e
calor destrutivo.
Ele era vitima de suas crias e isso ninguém jamais
entenderia. Ele escrevia-os, suas vidas, dores, mortes, nascimentos, duvidas e
erros, alheio a sua capacidade e responsabilidade por aqueles seres literários
que criara. Era um mundo avesso ao nosso mundo. Então porque se preocupar se
ele se tornara um DEUS a seus olhos sem perceber?
Era chegada a hora, ele sentia. Aquele que a ele escrevia já
determinara sua morte e ida, sem explicação, sem ironia.
Ele estava a mercê daquele que o empunhava feito marionete e
sem direito a oração no final do dia.
Por sua vez, já sabendo de seu destino – pois assim seu
criador o queria – ele selou a carta, esta escrita e lida a seus ouvidos e
olhos confusos que por hora já enxergam o final da narrativa estarrecidos com a
morbidez alucinada daquele que conhecem bem.
Ao final dela, como nesta basta saber: ele morrera pela
manhã, vitima de suas dores de cabeça do lado esquerdo, sem dor, sem medo, sem
revelações ou luz no fim do Túnel, como seus antepassados, ele se fora num
ponto final e um borrão de tinta.
Somente mais um personagem nascido pela incompreensão de um
criador em usar proteção em sua relação quase sexual com o papel e a caneta,
nos fluidos de suas inquietações. Mais um aborto, mais um assassinato e uma
conversão natural da natureza.
Ele se fora com dor de cabeça, e essa é a única moral que
talvez essa narrativa mereça.
Na carta, esquecida por anos a fio ate que este a encontrasse,
os dizeres de desespero e verdades de alguém que vivera gritando em silencio:
“E o Corvo disse: Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca
Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca
mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais!
Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca
Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca
mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais!
Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca
Mais! Nunca mais! Nunca Mais! Nunca mais! Nunca Mais...!”
*Trecho em prosa do Poema "The Raven" (original de Edgar Allan Poe), versão esta traduzida e adaptada por Helder da Rocha.




